19/11/2008 - 13:02:00
Crise mundial: subprime como ponta do iceberg
Por Edmundo Arruda Lima Jr (foto) - De Paris - Especial para a PÁGINA DO E
Estando em Paris tenho lido sobre o que se considera a maior crise financeira da história do capitalismo. O tamanho da crise é enorme e seus efeitos sequer vão se notando, sem contar que o pior esta por vir. Entao minha preocupação é entender um pouco de algumas dimensões da referida me fez escrever alguns artigos, que somente guardam sentido se puderem ser socializados com o maior numero de pessoas, afinal, vai sobrar para todos nós.
Para entendermos a crise atual temos que situar as suas raízes mais próximas, o outubro de 2008 quando eclodiu nos EUA a ponta do iceberg antigo: as dificuldades dos americanos de pequena renda em reembolsar os créditos que eles tomaram para comprar seus imóveis. Todos então passamos escutar os jornais falando na crise da subprime.
Subprime são os créditos imobiliários destinados aos interessados de renda baixa e sem condições de juros preferenciais (prime rate), estes ofertados aos compradores com maiores garantias. A garantia do empréstimo era o próprio imóvel via hipoteca. Esse endividamento crescente foi mascarado pelos juros baixos que o banco Central americano (FED) praticava desde 2001, quando ocorreu uma crise na bolsa de valores, com o advento do que se denominou de "bolha internet", bolha especulativa (ela mesma gestada desde o início da década de noventa estourando em 2000) nos mercados financeiros supervalorizando ações de produtos de novas tecnologias (telecomunicações e informática, principalmente). O super endividamento passou a acontecer quando os juros baixos mascaravam o refinanciamento dos créditos de acordo ao valor do bem, vale dizer, com um processo de re-endividamento progressivo.
Essa situação sustentou um forte crescimento dos EUA, mas levou a um enorme endividamento dos que compravam imóveis com os créditos imobiliários sub prime. Isso porque esses créditos eram no inicio atraentes por serem muito baixos mas em dois ou três anos passavam a depender de taxas variáveis, indexados pelos diretores do FED. Essa taxas por sua vez determinam em grande medida as taxas do dinheiro no dia a dia.
Ocorreu que o Banco Central americano aumentou aquelas taxas que eram baixas, de 1% em 2004, para 5% em 2006, para dar conta da inflação em face do crescimento dos EUA. Nesse momento aqueles que emprestaram começaram a não poder mais pagar os seus imóveis... Como não era uma exceção, mas regra, os financiadores que pensavam que com a hipoteca resgatariam o imóvel e o venderiam a preços que sempre aumentavam ( era o pressuposto), quebraram a cara pois os preços caíram em razão da inadimplência/insolvência generalizada. O valor dos imóveis passou a ser muito menor que o valor dos créditos. A falência dos que emprestavam e a revenda de imóveis tomados pela garantia real da hipoteca aceleraram a baixa dos preços imobiliários. A crise chega às agências de crédito que financiavam, que por sua vez começam também a quebrar. Efeito dominó...
Para termos uma idéia da crise já em 2007 os créditos subprime não reembolsados ultrapassavam os 15%, quando na média nunca passaram de 5% desde 1886. Um milhão de americanos perderam os imóveis, três outros milhões seguiam o mesmo caminho e os créditos não eram recuperados com a venda das casas. O custo da crise da subprime então era de 160 bilhões de dólares. Esse valor é enorme mas não suficiente para criar uma crise financeira mundial. Outros fatores jogam um papel importante, como veremos a seguir.
Edmundo Arruda Lima Junior - É Pós-Doutor pela Université Sant Denis de Paris, na França. Doutor em Sociologia do Desenvolvimento pela Université Catholique de Louvain-la-Neuve, na Bélgica. É professor da UFSC/Cesusc e reside atualmente em Paris, França